Voltar

QUANDO TUDO É PERSONALIZADO, O QUE AINDA PERMANECE EM COMUM?

A tecnologia permitiu falar com cada pessoa. Ainda não aprendeu o que precisa preservar entre elas.

Duas pessoas sentam-se à mesma mesa. Vivem na mesma cidade, participam da mesma sociedade e discutem o mesmo assunto. Então olham para seus celulares. Uma encontra um vídeo. A outra recebe uma notícia. Uma vê um argumento ajustado aos próprios interesses. A outra encontra outro recorte, outra prioridade, outra interpretação. A mesa continua compartilhada. A experiência do mundo, cada vez menos.

O problema não está apenas no excesso de informação. Está na organização desse excesso. Durante décadas, grande parte da comunicação disputou atenção em torno de mensagens relativamente comuns. Agora, sistemas digitais podem selecionar públicos, organizar visibilidade e adaptar discursos. A inteligência artificial amplia a escala desse processo. Produzir milhares de variações de uma mensagem deixou de ser uma hipótese distante.

A urgência, portanto, não está em combater a personalização. Está em aprender a preservar significado compartilhado em uma cultura cada vez mais orientada à relevância individual. Comunicação estratégica precisa fazer mais do que apenas encontrar a mensagem certa para a pessoa certa. Precisa ajudar pessoas diferentes a reconhecerem algo em comum.

1. Precisão não é compreensão

Uma reportagem publicada pelo The New York Times em 2 de novembro de 2026 chamou a atenção para o uso da inteligência artificial na personalização de mensagens eleitorais. O microdirecionamento político não nasceu com a IA. Campanhas já segmentavam públicos por localização, comportamento, preferências e perfil demográfico. A mudança está na capacidade de produzir, testar e adaptar discursos em uma escala muito maior.

Seria fácil construir uma narrativa assustadora a partir daí. Máquinas conhecem cada eleitor. Mensagens perfeitas encontram vulnerabilidades individuais. Algoritmos manipulam decisões. A história funciona bem. A ciência, felizmente, estraga sua simplicidade.

Um experimento com 8.587 participantes testou mensagens políticas geradas pelo GPT-4. Os textos foram persuasivos e, em algumas situações, elevaram o apoio a determinada posição em até 12 pontos percentuais. Mas apareceu uma contradição importante. As mensagens personalizadas tiveram um efeito agregado de 4,83 pontos percentuais. As não personalizadas, 6,20. A diferença não foi estatisticamente significativa. A IA demonstrou capacidade de persuadir, mas conhecer melhor o indivíduo não significou persuadi-lo melhor naquele experimento.

A tecnologia pode aumentar a precisão da comunicação sem aumentar, na mesma proporção, sua capacidade de promover a compreensão. Uma mensagem não entra em uma mente vazia. Ela encontra história, crenças, confiança, identidade, repertório e relações sociais. Otimizar palavras é diferente de formar significado.

Essa distinção deveria interessar a qualquer líder. Uma empresa pode segmentar perfeitamente uma campanha e, ainda assim, continuar culturalmente confusa. Uma igreja pode adotar dezenas de formatos e ainda assim não gerar pertencimento. Um influenciador pode dominar o algoritmo e, ainda assim, permanecer incapaz de sustentar uma ideia.

A eficiência responde: a mensagem chegou?

A comunicação precisa fazer uma pergunta maior: o que passou a existir depois dela?

2. O algoritmo não cria sozinho a divisão. Mas organiza aquilo que ganha visibilidade

É preciso separar três movimentos. Segmentar significa organizar pessoas em grupos. Personalizar significa adaptar uma mensagem ou uma experiência. Recomendar significa decidir quais conteúdos devem receber mais destaque. Misturar essas operações resulta em diagnósticos fáceis e em estratégias ruins.

Os estudos recentes ajudam a compreender essa complexidade. Uma pesquisa publicada na Nature em 2026 acompanhou usuários americanos do X por sete semanas. A passagem do feed cronológico para o algorítmico alterou algumas posições políticas e prioridades dos participantes. Ao mesmo tempo, não houve efeito significativo sobre a identificação partidária ou a polarização afetiva. O estudo mostra influência, não controle absoluto. Também mostra algo essencial: distribuir informação é organizar visibilidade.

Outros experimentos chegaram a resultados diferentes. Quatro estudos com quase 9 mil participantes manipularam recomendações de vídeos em um ambiente semelhante ao do YouTube. Mesmo com recomendações deliberadamente inclinadas a favor de determinados conteúdos políticos, os efeitos de curto prazo sobre as atitudes foram limitados. Algoritmos importam. Mas não operam fora da cultura, da identidade e das escolhas humanas.

O ponto mais interessante está menos na fantasia de uma máquina controlando consciências e mais na arquitetura da atenção.

Em um jornal impresso, dois leitores podiam discordar profundamente da mesma manchete. Em um ambiente personalizado, talvez nem encontrem a mesma manchete. Antes, havia uma disputa de interpretação sobre uma mensagem visível. Agora também há disputa sobre quais mensagens terão a oportunidade de se tornar visíveis.

A mudança parece técnica. Não é.

Visibilidade também é poder.

Quem organiza o que aparece ajuda a organizar o que pode ser lembrado, discutido e considerado importante.

3. A mensagem pode ser individual. O significado precisa encontrar companhia

A comunicação de massa nunca produziu uma sociedade homogênea. O mesmo discurso sempre pôde gerar concordância, negociação ou rejeição. O conceito de leitura preferencial do Stuart Hall ajuda justamente a escapar da ideia de um receptor passivo. Uma instituição pode organizar determinados sentidos em sua comunicação, mas não controla mecanicamente a interpretação de quem recebe.

A transformação contemporânea acrescenta outro elemento ao problema. Não existem apenas diferentes interpretações da mesma mensagem. Existem mensagens diferentes chegando desde o início. Isso não destrói automaticamente um mundo comum. Mas altera as condições necessárias para construí-lo.

Um mundo comum não exige consenso. Exige referências suficientes para tornar o desacordo compreensível. Duas pessoas podem discordar sobre política, fé, liderança ou cultura. Ainda assim, precisam reconhecer, minimamente, o objeto da discordância. Sem esse chão simbólico, diálogo vira colisão de realidades privadas.

Aqui aparece a diferença entre audiência e comunidade.

Audiência reúne pessoas diante de conteúdos.

Comunidade estabelece algo entre elas.

A ideia de Estrutura de Conteúdo parte justamente da comunicação como força capaz de participar da produção de significados e valores. Recorrência, autonomia de veiculação e coerência entre discurso e experiência criam condições para algo maior do que exposição. Criam reconhecimento, leitura compartilhada e vínculo.

Por isso, o princípio estratégico não deveria ser eliminar a personalização.

Deveria ser personalizar a forma sem fragmentar o fundamento.

Uma universidade pode adaptar as trajetórias de aprendizagem e, ao mesmo tempo, preservar uma formação comum. Uma igreja pode falar idiomas diferentes e ainda assim sustentar a mesma experiência comunitária. Uma empresa pode segmentar campanhas sem ter valores diferentes para cada público. Um líder pode mudar exemplos, linguagem e profundidade sem transformar convicções em variáveis de otimização.

Formato pode mudar.

Canal pode mudar.

Exemplo pode mudar.

O fundamento precisa ser reconhecível.

Quando tudo muda para agradar a cada indivíduo, a comunicação perde a capacidade de reunir as pessoas.

A personalização aproxima a mensagem da pessoa. A experiência comunicacional sustentada ao longo do tempo pode aproximar as pessoas entre si.

O próximo salto da comunicação não será falar melhor com cada um

A inteligência artificial continuará tornando as mensagens mais adaptáveis, rápidas e específicas. Isso provavelmente ampliará a eficiência de inúmeras formas de comunicação. O desafio estratégico começa depois dessa conquista.

Líderes precisarão decidir quais ideias devem permanecer iguais, enquanto quase todo o resto pode ser personalizado.

Porque comunicar não é apenas provocar uma resposta.

É participar da construção das referências usadas para interpretar o mundo.

A tecnologia aprimora a capacidade de comunicação com indivíduos.

A liderança precisa preservar a capacidade de construir algo entre eles.

Cinco decisões para construir significado compartilhado

  • Defina os significados centrais da organização antes de personalizar as mensagens. A linguagem pode variar; valores não devem mudar conforme o público.
  • Repita intencionalmente ideias essenciais. Produção recorrente não significa publicar mais. Significa sustentar referências até que se tornem reconhecíveis.
  • Alinhe discurso e prática. Uma mensagem só ganha força formativa quando a experiência confirma o que foi comunicado.
  • Proteja canais próprios e espaços comunitários. A autonomia de veiculação permite cultivar uma narrativa ao longo do tempo, sem depender apenas da lógica de distribuição das plataformas.
  • Avalie a comunicação além do clique. Pergunte não apenas qual resposta uma mensagem produziu, mas também qual significado ajudou a tornar comum.
marloncamargo_
marloncamargo_
Doutor em comunicação e linguagens, atuo como consultor em planejamento estratégico e, sempre que posso, dedico meu tempo a ensinar e compartilhar conhecimento. Acredito que unir tecnologia, cultura e propósito é o caminho para construir pontes reais entre marcas e pessoas, transformando vidas e inspirando comunidades.

Este site armazena cookies no seu computador. Política de Privacidade