
Uma reflexão crítica sobre os limites entre contextualização e comprometimento do Evangelho
Em minha jornada como pesquisador e consultor de comunicação, tenho observado um fenômeno que me inquieta profundamente: a crescente absorção da igreja pela lógica de mercado. Como Walter Benjamin já alertava, “o aparato econômico tende a absorver toda revolução” – e o Evangelho, a maior revolução da história da humanidade, não está imune a essa tendência. O que vemos hoje é uma gradual transformação de nossas comunidades de fé em espaços onde a linguagem do espetáculo frequentemente sobrepõe a mensagem da cruz.
A Esquizofrenia do Evangelho Mercantilizado
O cenário é preocupante: igrejas com áreas VIP, eventos com patrocinadores, e uma obsessão crescente por métricas de engajamento. Em um país onde 82% da população tem renda familiar abaixo de R$3.500, nos deparamos com manifestações ostensivas de riqueza em nome da “excelência ministerial”. A contradição é gritante e a dissonância com o evangelho, evidente.
Esta fusão entre sagrado e mercado não é apenas uma questão de adaptação aos tempos modernos – é uma distorção fundamental da mensagem cristã. Quando pastores se tornam celebridades e cultos se transformam em shows patrocinados, perdemos algo essencial do DNA do cristianismo: sua natureza contracultural e transformadora.
A esquizofrenia se revela ainda mais claramente quando analisamos o discurso: falamos de intimidade com Deus em vídeos patrocinados por instituições financeiras, pregamos humildade usando artigos de luxo, e justificamos práticas do espetáculo com versículos descontextualizados. É uma batalha não apenas teológica, mas fundamentalmente cultural.
O Preço da Relevância
Existe um argumento recorrente no meio eclesiástico: precisamos ser relevantes para a cultura contemporânea. Contudo, quando essa busca por relevância nos leva a adotar acriticamente práticas de mercado, corremos o risco de diluir a essência do Evangelho. A igreja atual frequentemente se encontra correndo atrás de tendências mercadológicas já ultrapassadas, enquanto o mundo já busca desaceleração e significado.
O fenômeno da “experiência” e “excelência” exemplifica bem este ponto. Enquanto igrejas começam a adotar agora conceitos de branding experience que o mercado explorava há uma década, a sociedade já clama por autenticidade, simplicidade e conexões genuínas. Estamos não apenas comprometendo nossa mensagem, mas também chegando atrasados à conversa cultural.
É crucial entender que contextualização não significa rendição. O Evangelho precisa dialogar com a cultura contemporânea, mas mantendo sua essência transformadora e profética. Quando nos rendemos à lógica do mercado sem discernimento, perdemos nossa capacidade de ser sal e luz em uma sociedade já saturada de consumismo.
O Caminho do Discernimento
A solução não está em demonizar toda adaptação cultural ou rejeitar completamente estratégias contemporâneas de comunicação. O desafio é desenvolver um discernimento aguçado que nos permita distinguir entre contextualização necessária e comprometimento desnecessário. Precisamos de uma teologia prática que dialogue com a cultura sem se render a ela.
Este discernimento começa com perguntas fundamentais: Esta prática serve ao Reino ou ao mercado? Estamos facilitando o encontro com Deus ou criando barreiras? Nossa “excelência” reflete a glória de Deus ou nossa própria vaidade? São questões desconfortáveis, mas necessárias para uma igreja que deseja permanecer fiel à sua missão.
O chamado é para uma revolução silenciosa dentro de nossas comunidades. Uma revolução que não rejeita a contemporaneidade, mas que a filtra através das lentes do Evangelho. Que não teme a excelência, mas a define pelos padrões do Reino. Que busca relevância não através da imitação do mercado, mas através da autenticidade radical do amor cristão.
Takeaways marloncamargo_
- Discernimento Cultural: Desenvolva critérios claros para distinguir entre contextualização necessária e comprometimento do Evangelho.
- Autenticidade sobre Tendência: Priorize a verdade bíblica e a coerência ministerial acima das práticas mercadológicas.
- Consciência Socioeconômica: Mantenha sensibilidade ao contexto econômico de sua comunidade ao tomar decisões ministeriais.
- Relevância Autêntica: Busque ser relevante através da autenticidade do Evangelho, não da imitação do mercado.
- Contracultura Cristã: Preserve o caráter contracultural do Evangelho mesmo ao dialogar com a cultura contemporânea.
