
Descubra por que sua igreja precisa transcender a comunicação performática para criar conexões mais profundas e autênticas com sua comunidade – e como fazer isso de maneira estratégica e efetiva
Em um mundo dominado por likes, visualizações e métricas de engajamento, muitas igrejas despertaram para a importância da comunicação digital. No entanto, será que estamos realmente comunicando o Evangelho ou apenas performando nas redes sociais? Esta reflexão se torna ainda mais crucial quando observamos o paradoxo atual: nunca foi tão fácil enviar mensagens globalmente, mas a verdadeira conexão parece cada vez mais distante. Em meio a uma cacofonia digital que lembra a Torre de Babel, precisamos repensar nossa abordagem à comunicação eclesiástica.
As Duas Asas da Comunicação Eclesiástica
A comunicação na igreja pode ser comparada a um pássaro que precisa de duas asas para voar: a normativa e a funcional. A asa normativa estabelece cultura, modo de vida e valores compartilhados – é aquela que dá sentido e significado à mensagem. Já a asa funcional representa a performance, as métricas e o desempenho técnico. O problema surge quando tentamos voar apenas com uma asa, desequilibrando nossa mensagem e limitando nosso alcance real.
Desde a pandemia em 2020, as igrejas mergulharam no mundo digital com lives, posts e conteúdo constante. A urgência do momento nos empurrou para uma presença online massiva, mas raramente pensamos na comunicação como ferramenta para gerar uma comunidade saudável. É como se estivéssemos tão focados em transmitir que esquecemos de conectar. Multiplicamos nossos canais de comunicação, mas será que estamos multiplicando conexões verdadeiras?
A busca incessante por performance pode cauterizar a mente do sujeito contemporâneo. Vivemos de clickbait em clickbait, buscando trends e virais, esquecendo que o Evangelho demanda uma complexidade maior que simplesmente surfar na onda do momento. Quando priorizamos apenas números e engajamento, corremos o risco de criar um cristianismo superficial, baseado mais em curtidas do que em transformação de vida.
O Desafio Cultural da Comunicação
Uma das maiores armadilhas da comunicação puramente performática é ignorar as diferenças culturais. Como podemos esperar que uma mensagem gravada em Nova York toque profundamente o coração de alguém no interior do Brasil? A cultura se constitui nas relações vividas, na dinâmica local. Cada comunidade tem sua própria estrutura de sentimento, formada por experiências compartilhadas e significados comuns.
O fim das distâncias físicas revelou a extensão das distâncias culturais. As técnicas são homogêneas, mas o mundo é heterogêneo. Quando ignoramos essa realidade, corremos o risco de criar o que Dominique Wolton chama de “solidões interativas” – pessoas conectadas, mas profundamente sozinhas. É o paradoxo de nossa era: quanto mais ferramentas de comunicação temos, mais difícil parece se tornar a verdadeira conexão.
Este paradoxo se manifesta claramente quando observamos influenciadores digitais com milhares de seguidores, mas com dificuldade de conectar presencialmente. O individualismo gerado por essa dinâmica contradiz diretamente o princípio bíblico de comunidade. Afinal, o cristianismo primitivo não era conhecido por seus números, mas por ter “tudo em comum” – uma realidade que parece cada vez mais distante em nossa era digital.
Transcendendo a Performance
A comunicação não deveria ser tratada como secundária na igreja – ela é a própria essência do Evangelho. O Verbo se fez carne, e toda a história da salvação se constitui a partir da Palavra. No entanto, em termos institucionais, muitas igrejas priorizam estruturas físicas e espetáculos em detrimento da verdadeira comunicação. Investimos muito em aparatos técnicos, mas pouco em estratégias para formar comunidades autênticas.
A Europa nos serve como alerta: templos majestosos transformados em museus demonstram que estrutura e performance, sozinhas, não geram Evangelho. A igreja contemporânea, especialmente a brasileira, precisa aprender essa lição para evitar o mesmo destino. O hibridismo entre igreja e entretenimento tem gerado confusão: muitas vezes não sabemos se estamos num culto ou num show, num templo ou num shopping center.
O grande desafio para o futuro da Igreja é transcender a comunicação puramente performática e estabelecer comunidades autênticas. Isso significa equilibrar as duas asas da comunicação, usando a tecnologia como ferramenta, não como fim em si mesma. Precisamos entender que os termos não são neutros – quando nos apropriamos de uma linguagem que não é a do Reino, corremos o risco de confundir os sentidos e diluir nossa mensagem.
Uma Estratégia Equilibrada
Para desenvolver uma comunicação mais efetiva e equilibrada, precisamos considerar alguns pontos fundamentais. Primeiro, é essencial compreender que a comunicação estratégica começa com a escuta. Antes de bombardear nossa audiência com conteúdo, precisamos entender sua cultura, seus anseios e sua linguagem.
Em segundo lugar, devemos investir em formação. Não basta saber usar as ferramentas – é preciso compreender os fundamentos da comunicação e sua relação com a cultura. Como diz um amigo teórico: “não há vida humana reflexiva sem teoria”. A prática sem fundamentação tende a ser superficial e meramente reprodutiva.
Por fim, precisamos desenvolver métricas que vão além dos números. Como medimos transformação de vida? Como avaliamos a profundidade das conexões que estamos criando? Estas são questões que precisam nortear nossa estratégia de comunicação tanto quanto – ou mais que – as métricas tradicionais de engajamento.
Um Chamado à Comunicação Autêntica
O futuro da comunicação na igreja não está apenas nas métricas digitais ou na perfeição técnica, mas na capacidade de gerar significados compartilhados que transformam vidas. Precisamos usar a tecnologia sem nos tornarmos reféns dela, comunicar com excelência sem perder a essência do Evangelho.
O convite é para uma comunicação mais profunda, que vai além dos números e alcança corações. Uma comunicação que não apenas transmite informação, mas gera transformação. Afinal, o Evangelho não é sobre performance, mas sobre dar sentido à vida das pessoas e criar comunidades autênticas que reflitam o Reino de Deus.
Takeaways marloncamargo_
- A comunicação na igreja precisa equilibrar aspectos normativos (cultura e valores) e funcionais (técnica e performance). Não podemos voar apenas com uma asa.
- A tecnologia deve ser uma ferramenta para conectar pessoas, não um fim em si mesma. Use as plataformas digitais para fortalecer, não substituir, conexões reais.
- Considere sempre o contexto cultural local ao comunicar o Evangelho. A mensagem precisa fazer sentido dentro da estrutura de sentimento de sua comunidade.
- Priorize a construção de comunidade sobre métricas de engajamento. Números impressionam, mas transformação de vida permanece.
- Lembre-se: os termos não são neutros – use uma linguagem alinhada com os valores do Reino, evitando o hibridismo que confunde nossa mensagem com entretenimento.
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